sábado, 9 de fevereiro de 2008

O MICO DO ANO, ALIÁS, MAIS UM

9.2.2008

Juro que resisti. Muito. Lutei desesperadamente para não mexer nesse angu. Mas, não dá. A estupidez é tamanha, que a gente acaba se envolvendo e, quando menos se espera, lá estão os dedos no teclado do computador, porque a cabeça fervilha de indignação.

A questão, é claro, é o tal do cartão corporativo do Governo. Vai ser o mico do ano. Anotem.

Esses caras (nem vale a pena citá-los como jornalistas ou repórteres, de tão baixo o nível dessa gente) nunca trabalharam em grandes empresas que adotam o uso de cartão, ou pagam despesas de funcionários que viajam? São uns idiotas, portanto? Nunca tiveram que prestar contas de diárias de hotel, de refeições, de táxi? Não sabem como funciona isso em empresa particular? São completamente alienados?

Não. Não são alienados. Mas querem que o povo seja idiota e alienado. Por isso, fazem todo esse escarcéu com os gastos dos cartões corporativos do Governo. Que Governo? De São Paulo, é claro! Afinal, a máquina governista do Serra gastou, em 2007, 108 milhões de reais!

Não é um absurdo?

Não. Provavelmente, não. Porque a máquina administrativa é, realmente, cara. Há gastos improváveis, até risíveis, se deslocados do contexto. Por que, por exemplo, um funcionário iria gastar, suponhamos, mil reais, num supermercado, com papel higiênico? Um absurdo, diriam todos. Mas, se esse funcionário é responsável pelo gasto de toda uma repartição com centenas de funcionários, isso passa a ser plenamente possível. E justificável.

Há, é lógico, gente que se aproveita. Ou se descuida. E usa o cartão para despesas estritamente pessoais. Isso, no entanto, qualquer auditoria (e os governos têm órgãos especializados para isso) pega e autua o funcionário, fazendo-o ressarcir os cofres públicos ou punindo-o. Como qualquer empresa privada. Que também tem problemas com esse tipo de despesa. Porque não há um sistema infalível de controle, nem um sistema infalível contra pequenas fraudes.

Ou pequenos arranjos.

Na empresa em que eu trabalhei, por exemplo, havia a seguinte distorção: quando viajava, para um congresso, um encontro de profissionais da área, não era incomum ser obrigado a convidar pessoas para almoçar comigo. E aí, o bicho pegava. Primeiro, porque não tinha verba para isso (só o vale-alimentação, que dava para o almoço no bar da esquina, mas não num restaurante mais elegante). Por outro lado, gastos com táxi eram praticamente livres (dentro de alguns parâmetros). Então, o que eu fazia? Programava meus deslocamentos por transporte público e reservava a verba do táxi para esse tipo de gasto. Estava errado? Sim e não. Não roubava, mas também não era totalmente honesto com a empresa. Apenas fazia um arranjo. Para não sair no prejuízo. Porque não havia outro jeito.

O mesmo deve ocorrer por aí, em toda e qualquer empresa. Pública ou privada.

Os gastos diários de uma casa de cinco pessoas, como a minha, são altos. E administrá-los é sempre um problema. Não dá para controlar tudo. Imagine-se, então, um governo como o de São Paulo, que tem milhares, senão milhões, de funcionários, com demandas que vão desde um simples rolo de papel higiênico até helicópteros. São milhares de itens a serem comprados todos os dias. Presume-se que quem os compre seja honesto. Se não for, há os mecanismos naturais de correção de desvios. Além, é claro, do povo, que pede transparência nos gastos públicos, com muita justiça, aliás.

Então, toda essa gritaria dos idiotas da imprensa não tem outro objetivo do que fazer marola, querer jogar nas costas do Governo um problema secundário, mas importante, como se fosse o maior escândalo do mundo.

Está bem: concordo que gastar 108 milhões por ano é muito. Mas, tenho certeza de que o Governador Serra, um homem probo, político experiente, que governa com transparência e sabedoria o nosso Estado, saberá colocar em campo seus auxiliares para explicar, muito bem explicadinho, cada centavo gasto. E, se houver desvios, os responsáveis serão devidamente punidos.

Ah! E tem mais: nosso Governador deverá, em breve, colocar na Internet a relação de todos os gastos, tintim por tintim, para calar o bico de todos os detratores! Porque transparência é isto: abrir todas as contas, não temer investigações nem CPIs, que a oposição já está pedindo. Será mais uma, dentre as dezenas de CPIs por que o nosso Governador já passou, incólume, sem nenhum sinal de escândalo, sem nenhum prejuízo para sua grande administração.

E os idiotas da mídia que fizeram esse escândalo todo ficarão com o maior mico da história.

Isaias Edson Sidney

Obs.: Permitida e, até, incentivada a divulgação, desde que citados o autor e, pelo menos, o blog Veneno de Cobra.

http://www.venenodecobra2003.blogger.com.br

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Cartilha da Febre Amarela



Semana passada, o Luiz Carlos Azenha me procurou com um pedido: a jornalista Conceição Lemes, leitora deste blog e com quem conversei por telefone há alguns dias sobre a questão da febre amarela e o alarmismo da mídia, enviou ao jornalista um material que ele repassaria a blogs determinados para, em corrente, contribuirmos para o esclarecimento da opinião pública, que acaba de ser vítima dos grandes meios de comunicação por conta da disseminação de notícias falsas sobre o Brasil estar sob uma epidemia de febre amarela.

Conceição Lemes atua como jornalista especializada em saúde há 25 anos. Já ganhou 22 prêmios por reportagens nessa área. Entre eles, o Esso de Informação Científica e José Reis de Jornalismo Científico, concedido pelo CNPq. Conquistou também vários prêmios Abril de Jornalismo, a maioria por matérias publicadas na revista Saúde!, da qual foi repórter, editora-assistente, editora e redatora-chefe. Em 1995, foi com a reportagem "Aids - A Distância entre Intenção e Gesto", publicada pela revista Playboy. O projeto que desenvolveu para essa matéria foi selecionado para apresentação oral na 10ª Conferência Internacional de Aids, realizada em 1994 no Japão. Pela primeira vez um jornalista brasileiro teve o seu trabalho aprovado para esse congresso. Concorreu com cerca de 5 mil trabalhos enviados por pesquisadores de todo o mundo. Aproximadamente 300 foram escolhidos para apresentação oral, sendo apenas dez de investigadores brasileiros. Em conseqüência, foi ao Japão como consultora da Organização Mundial de Saúde.

Reproduzo abaixo, em duas partes, esse verdadeiro tratado sobre a febre amarela.


*

Febre Amarela

por Conceição Lemes


Fim de dezembro de 2007. Surge o primeiro caso suspeito de febre amarela deste verão. Rapidamente, o assunto domina o noticiário. A mídia, por conta própria, decreta: a febre amarela voltou. O auge foi conclamar a população a se vacinar em massa. "Um verdadeiro crime contra a saúde pública brasileira", condena o médico epidemiologista Euclides Castilho, professor titular do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

A primeira vez que se cogitou vacinar toda a população foi no final de 1999 e início de 2000. Em Goiás, na Chapada dos Veadeiros, ocorria um grande surto de febre amarela. Ao mesmo tempo, havia alta infestação do mosquito Aedes aegypti em boa parte das cidades brasileiras. O aedes, além de transmitir o vírus da dengue, é o transmissor do vírus da febre amarela urbana.

Após intenso debate com especialistas das nossas principais instituições de pesquisa, o governo optou, como agora, não vacinar os moradores de áreas sem risco. A vacina é eficaz e segura. Porém, ela pode produzir efeitos colaterais, alguns graves; em raros casos, óbitos. No Brasil, há quatro mortes associadas à vacina a partir de 2000. Há fortes indícios de que já exista mais uma. Ocorreu quinta-feira, dia 31 de janeiro, em São Paulo: uma mulher que não precisava se vacinar - ela não pretendia viajar para região de risco - e, ainda, tinha contra-indicações. De 1999 a 2007, foram aplicadas no país cerca de 79,5 milhões de doses. Em janeiro de 2008, aproximadamente 6,3 milhões. Estão disponíveis somente na rede pública de saúde.

"Como a vacina é barata e o Brasil o maior produtor mundial, seria, em tese, mais fácil o Ministério da Saúde ceder à pressão da mídia e determinar a vacinação em massa", observa o médico epidemiologista e pesquisador Cláudio Struchiner, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). "Felizmente, prevaleceram os critérios científicos e tecnológicos."

"Deus me livre, vacinar todo mundo sem necessidade", reforça o infectologista Celso Granato, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Vacina não é como um comprimido de vitamina C, que você toma e elimina o excesso na urina." O infectologista Celso Ferreira Ramos-Filho, professor da URFJ e presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, é categórico: "O Brasil sempre seguiu à risca as recomendações internacionais para controle e prevenção da febre amarela. O problema é que a mídia fez uma mixórdia tremenda, a começar por confundir a forma urbana com a silvestre."

Ambas são doenças infecciosas, causadas pelo mesmo vírus. A última epidemia de febre amarela urbana aconteceu no Acre em 1942. Já a febre amarela silvestre não voltou por uma simples razão: ela nunca foi embora. É de 1692 o primeiro relato da doença no Brasil; foi um surto na Bahia. "Nem irá nos abandonar", antecipa Castilho. "A menos que se exterminem todos os macacos, o Haemagogus e o Sabethes. Algo totalmente irreal. Afinal, são seres silvestres e fazem parte da natureza."

O Haemagogus e o Sabethes (apenas durante a estação seca) são os mosquitos que transmitem o vírus da febre amarela silvestre ao homem. No país, de 1996 a novembro de 2007, há 349 casos confirmados, com 161 óbitos. O ano de maior incidência foi 2000: 85 casos confirmados, 40 óbitos. De dezembro de 2007 a dia 4 de fevereiro de 2008, há 25 casos confirmados e 13 óbitos. Os dados são da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde (MS).

"Não há epidemia de febre amarela - nem urbana nem silvestre", informa o médico epidemiologista Eduardo Hage Carmo, coordenador de Vigilância Epidemiológica do MS. "Existe uma situação de emergência: temos casos, mas não temos surto." A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) assinam embaixo. "O Brasil está no caminho certo", sustenta o médico epidemiologista Jarbas Barbosa da Silva Jr., gerente da área de Vigilância em Saúde e Manejo de Doenças da OPAS/OMS. "O governo tem que continuar adotando as medidas de controle e prevenção, como já tem feito."

Isso significa:

1) Vacinação de quem realmente precisa vacinar-se. "Incluem-se, aqui, as crianças que residam ou viajam para as áreas de risco", alerta o pediatra Gabriel Oselka, professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP e membro do Comitê Técnico de Imunizações do MS. Atualmente, a vacina faz parte do calendário infantil de vários estados brasileiros (veja mais adiante).

2) Vigilância de morte de macacos, para monitorar a circulação do vírus da febre amarela. Como eles são o "prato" predileto do mosquito transmissor da forma silvestre, funcionam como sentinela. A morte deles é um sinal de alerta, que exige investigação, para evitar casos humanos. Desde 2003, todos os estados têm equipes treinadas para fazer essa vigilância. "É um sistema bastante sensível que tem permitido detectar epizootias (morte de macacos pelo vírus da febre amarela silvestre) e intervir antes que o vírus chegue ao homem, prevenindo epidemias", salienta Ramos. Vigilância dos sintomas.

3) Nas regiões de risco de febre amarela, é obrigatória a notificação como suspeitos dos casos de pessoas com febre alta e icterícia (pele e olhos amarelados) ou febre alta e alguma hemorragia. E, em seguida, investigados, pois há muitas doenças com sintomas semelhantes.

4) Detecção precoce e tratamento dos casos suspeitos.

5) Combate ao Aedes aegypti. "A erradicação ou, pelo menos, a sua diminuição drástica só será possível com a ajuda de toda a população", adverte Struchiner. "Além de lutar contra a dengue, você estará ajudando a evitar a urbanização da febre amarela."

Grande parte da mídia, porém, ignorou essas e outras informações. Gerou a sua "epidemia", provocando desinformação, pânico, filas, vacinações desnecessárias, erradas, entre outros "efeitos colaterais". Por isso, juntamos, aqui, os doutores Euclides Castilho, Jarbas Barbosa da Silva Jr., Celso Ferreira Ramos-Filho, Cláudio Struchiner, Celso Granato, Eduardo Hage Carmo e Gabriel Oselka. Esses sete especialistas nos ajudaram a elaborar este guia para você se proteger - de verdade! -- da febre amarela.

Brasil só tem a forma silvestre

Doença infecciosa aguda, de curta duração (no máximo, 10 dias), gravidade variável, causada pelo vírus da febre amarela. Continua a ser importante problema de saúde pública nas Américas e África tropical. Tem dois tipos de transmissão: a silvestre e a urbana. No Brasil, a que existe é a febre amarela silvestre, restrita principalmente às áreas de matas e florestas.

Dos animais para o ser humano

Começando pelo tipo silvestre. O Haemagogus prefere o macaco. Aí, o mosquito, caso esteja contaminado, transmite o vírus ao primata, que então se infecta. Assim, um passa o vírus para o outro, sucessivamente. É um ciclo mosquito-macaco-mosquito.

Já o ciclo de transmissão da febre amarela urbana é diferente. Primeiro, o ser humano infectado pelo vírus da febre amarela precisa ser picado pelo Aedes aegypti. Depois, se o mosquito realmente se contaminar, o vírus se desenvolve. Mas, só numa picada posterior, a transmissão se completa. Desde que, é claro, essa pessoa nunca tenha entrado em contato com o vírus -- seja naturalmente ou pela vacina. A transmissão pelo Aedes é que a caracteriza. "Febre amarela urbana não significa caso de pessoa que reside na cidade, como muitos pensam", avisa Hage. "No momento, é muito remoto o risco desse tipo no Brasil."

Onde "mora" o perigo


A fonte deste mapa é a Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde. Nele, é possível visualizar todas as áreas de risco de febre amarela silvestre no Brasil. Cada cor corresponde a um tipo de risco:

* Verde significa região endêmica. São os estados onde a circulação do vírus é constante e o risco, permanente; em geral, tem poucos casos, devido à maior vacinação da população. No ambiente silvestre, porém, a reprodução dos mosquitos está mais ligada a um ciclo natural, sazonal. Assim, a cada cinco a oito anos, tem um pico. Foi o que aconteceu em Goiás, em 2000. É o que acontece agora nos estados com casos humanos e mortes de macacos.

* Vermelho, a área intermediária, ou de transição. Nela, o vírus circula em baixa intensidade, esporadicamente. É uma área de risco médio. Entretanto, ocasionalmente, também pode ter picos, como os observados, em 2001, no Rio Grande do Sul (em macacos), e, em 2001 e 2003, em Minas Gerais (em macacos e humanos).

* Amarelo, a área de risco potencial. Até o momento, não apresenta circulação de vírus da febre amarela. No entanto, é vulnerável, pois:

1) apresenta características ecológicas semelhantes àquela onde, em 2003, ocorreu o surto em Minas Gerais;

2) é uma região muito próxima da zona de transição. Tanto que, nela, há uma busca sistemática de macacos doentes ou mortos.

* Azul, a área indene, isto é, sem risco de febre amarela. Além de não haver circulação do vírus, não tem contigüidade com áreas onde ele circula.

Como você pode se infectar

O vírus da febre amarela não se "pega" como o vírus da gripe, por exemplo. A transmissão não é ser humano a ser humano. É preciso um agente intermediário. No caso, os mosquitos transmissores do vírus da febre amarela, principalmente o Haemagogus, o mais freqüente: "O Haemagogus só nos pica quando entramos de bicão no pedaço dele, e ele não tem outro alimento mais apetitoso por perto", fala sério Ramos-Filho. "Aí, o ser humano acidentalmente se infecta, caso não esteja imune."

Portanto, tem risco de se infectar quem:

* Reside nas zonas verde, vermelha e amarela do mapa da SVS/MS e não tomou a vacina.

* Viaja para essas mesmas zonas, em qualquer época do ano e não se vacinou.

Sintomas: três a seis dias após a infecção

Nem todas as pessoas infectadas pelo vírus da febre amarela têm sintomas. Nas que apresentam, eles geralmente aparecem três a seis dias após a pessoa ser picada: febre, calafrios, vômitos; dores de cabeça, nas costas e musculares; fadiga e fraqueza. Essa fase pode ser seguida por ligeira melhora, que dura, em média, 24 horas. Porém, nos casos graves, a febre alta e demais sintomas reaparecem acompanhados de hemorragia de gengiva, nariz, estômago, intestino e pele (manchas vermelhas no corpo). Icterícia (pele e olhos ficam amarelados) e presença de proteínas na urina freqüentemente ocorrem nos casos graves. Nos estágios mais avançados, a pessoa pode ter hipotensão, necrose do rim, arritmia cardíaca. Também entrar em coma.

"Não há tratamento específico para a febre amarela", adverte Euclides Castilho. "Os tratamentos são apenas para os sintomas."

Fatal em cerca de 50% dos casos

Entre as pessoas infectadas pelo vírus da febre amarela e que têm sintomas, cerca de 50% morrem. No Brasil, dos 349 casos confirmados de 1996 a novembro de 2007, 161 foram a óbito. Atente à situação, ano a ano.

Vacina, a única prevenção eficaz

Só há uma forma segura de prevenir a febre amarela: vacina. É fabricada com vírus vivo da doença, atenuado, em oito países: Brasil, França, Estados Unidos, Inglaterra, Índia, Rússia, Colômbia e Senegal. São oitos laboratórios, todos pré-qualificados pela OMS. Apenas três produzem para o mercado global, entre eles: Instituto Bio-Manguinhos, da Fiocruz - o maior produtor mundial; e o Instituto Pasteur, na França. A vacina é a mesma. De 1999 a janeiro de 2008, foram aplicadas aproximadamente 85,8 milhões de doses no Brasil. Tem validade de dez anos.

"É uma vacina eficaz e segura", garante Jarbas Barbosa, da OPAS/OMS. Gabriel Oselka frisa: "A eficácia é praticamente de 100%".

Descubra quem deve se vacinar e por quê

Deve ser vacinado quem:

* Ainda não se vacinou e reside em: todos os estados das regiões Norte e Centro-Oeste; todos os municípios do Maranhão e Minas Gerais; municípios do sul do Piauí, oeste e sul da Bahia, norte do Espírito Santo, noroeste de São Paulo e oeste de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

* Vai viajar para esses mesmos lugares por qualquer motivo - negócios, visita a familiares, trabalho, ecoturismo. Importante: a vacina deve ser tomada dez dias antes da viagem, independentemente da época do ano.

* Vai viajar ou procede de países com alto risco de febre amarela, estabelecidos pela OMS.

"Além de estar na agenda de vacinação internacional, a vacina faz parte, desde a década de 1990, do calendário de imunização infantil da região endêmica", informa Eduardo Hage. "A partir de 2004, tornou-se também sistemática para adultos dessa região, assim como para crianças e adultos da área de transição."

Na certa, a esta altura, tem gente objetando: "Se a pessoa reside ou pretende viajar para a área vermelha ou amarela por que se vacinar?"

"Primeiro, você deve se vacinar, sim", rebate Cláudio Struchiner. Por várias razões: 1) Tem risco potencial; 2) Proteger a si próprio de eventual picada por mosquito contaminado; 3) Ajudar a impedir a urbanização da febre amarela. Uma vez vacinadas, as populações das áreas de transição e de risco potencial funcionam como barreiras de proteção entre a população urbana e a região silvestre, onde a transmissão está se dando. Quanto menos pessoas infectadas pelo vírus da febre amarela nas cidades, menor a probabilidade de os mosquitos urbanos - leia-se Aedes aegypti - se contaminarem e passarem a transmitir a doença. Aí, sim, pode ocorrer a febre amarela urbana.

"Mas eu moro em Brasília, onde o risco é zero. Por que me vacinar?", mais gente deve replicar. "Em Manaus, o risco de febre amarela também é zero. E aí?"

"Realmente, nas cidades citadas o risco é zero. Mas que certeza vocês têm de que nunca irãoaos seus arredores, como Pirinópolis, próximo a Brasília?", devolve o desafio Celso Ramos. "Muitas vezes um simples churrasco rural pode ser uma fonte insuspeitada de risco." Não à toa Jarbas Barbosa é taxativo: "Moradores de áreas de risco devem se vacinar, mesmo que vivam em cidades. Muito provavelmente vocês têm eventualmente contato com ambientes silvestres próximos, como chácaras, cachoeiras, rios e áreas de camping".
Atenção às contra-indicações

Como qualquer vacina composta de vírus vivos (mesmo que atenuados) e cultivados em embriões de ovos de galinha, a da febre amarela tem contra-indicações:

* Bebês com menos de seis meses; há risco de encefalite (inflamação do cérebro).

* Pessoas alérgicas, especialmente a ovo; têm risco de reação grave.

* Pessoas com baixa imunidade devido a doenças ou ao tratamento delas. Por exemplo, câncer, transplante de órgãos ou lupus, que exigem remédios imunossupressores, como corticosteróides em altas doses.

* Gestante ou mulher que pretende engravidar; há risco teórico de o vírus da vacina atravessar a placenta e causar encefalite no feto.

"Quanto a pacientes HIV-positivos, não existem dados que permitam uma posição inconteste", informa Ramos. Há relato de um caso de reação indesejada na Tailândia. É preciso, portanto, avaliar caso a caso, pesando risco e benefício.

Reações adversas: leves, as mais comuns

Também como toda vacina fabricada com vírus vivos atenuados, a da febre amarela tem efeitos colaterais. Os mais comuns: dor no local da injeção - é imediata; febre baixa, dor de cabeça e mal-estar - três a oito dias após a vacinação. Atingem 5% a 15% dos vacinados. "As reações mais comuns, portanto, são leves, em sua intensidade", enfatiza Celso Granato.

A vacina pode, ainda, eventualmente causar:

* Asma, urticária e até choque anafilático em pessoas alérgicas a ovo ou outro componente utilizado na preparação da vacina. Ocorre menos de 1 caso por um milhão de vacinados.

* Encefalite. É uma reação grave, temida, mas muito rara. Surge cerca de 12 dias após a aplicação da vacina, e se manifesta por febre, dor de cabeça, irritabilidade, sonolência/torpor/coma e convulsões. É mais comum em bebês com menos de seis meses, daí a contra-indicação para eles. Depende da cepa viral usada. Especificamente a cepa francesa, utilizada na vacina manufaturada no Senegal.

* Simulação de febre amarela. Casos esporádicos têm sido verificados ultimamente, com graves danos aos rins e fígado. Esses casos ocorreram em pessoas com doença do timo (glândula situada em frente à traquéia, muito importante para a produção de substâncias de defesa do organismo) e em indivíduos acima de 65 anos.

"Temos em investigação 47 casos suspeitos de reação à vacina; 21 foram hospitalizados com reações moderadas a graves", informa Eduardo Hage. Qualquer pessoa que toma a vacina e, em dez dias, apresente febre, manchas avermelhadas no corpo ou reações mais graves, como icterícia ou hemorragia, deve ser considerada como caso suspeito de reação adversa. E, aí, só uma investigação laboratorial confirmará, pois os sintomas de reação à vacina podem se confundir com os de várias doenças.

1 óbito para cada 1 milhão de vacinados

O risco de óbito é uma possibilidade remota. Não é exclusividade da vacina contra a febre amarela. Também não é um problema da vacina brasileira. Aconteceu igualmente com a fabricada nos Estados Unidos.

"Num estudo que realizamos em Minas Gerais e Rio Grande do Sul, estimamos a possibilidade de 1 óbito para cada 12 milhões de doses aplicadas", revela Cláudio Struchiner. Já o Ministério da Saúde trabalha com uma probabilidade maior: 1 óbito para cada um milhão de vacinados. "É que levamos em conta o total de doses aplicadas no país e o total de efeitos colaterais relatados à SVS", explica Hage.

Conclusão: só tem sentido vacinar uma população quando o risco de ela se infectar pelo vírus da febre amarela é maior do que o risco de reações adversas graves da vacina. No caso da região indene (em azul, no mapa), seguramente o risco da vacina é maior.

Uma dose a cada dez anos

A vacina contra a febre amarela protege você por dez anos. Portanto, só a cada dez anos, você tem que se revacinar.

"É errado tomar duas, três doses seguidas", adverte Gabriel Oselka. A vacina não é um remédio qualquer. É um produto imunobiológico que contém vírus vivo atenuado. Como o posto de saúde não pode negar a ninguém a vacina, o controle está em suas mãos. Uma dose só, a cada dez anos!

Todos podem ajudar. Faça a sua parte!

Portanto, esta é a realidade hoje:

1) Se você mora ou vai viajar para região de risco de febre amarela, vacine-se se ainda não o fez.

2) Se tem alguma das contra-indicações citadas ou outro problema de saúde, consulte o seu médico ou uma Unidade Básica de Saúde antes de se vacinar. Nesses casos, é preciso colocar na balança o risco e o benefício de cada situação.

3) Se mora em área sem risco, melhor para você. Está livre da vacina. Não caia na armadilha do "se bem não faz, mal também não vai fazer". Em se tratando da vacina contra a febre amarela, isso é uma roubada.

4) Não deixe a água se acumular nos vasinhos de plantas, tampe a caixa d´água, não jogue pneus nem garrafas de refrigerante ou latinhas de cerveja nas ruas. Isso - você sabe muito bem - combate a proliferação do mosquito Aedes aegypti. O benefício é duplo. Você ajuda a diminuir a dengue e a prevenir a urbanização da febre amarela. Faça a sua parte. Proteja-se de verdade!

Escrito por Eduardo Guimarães

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

VIOLÊNCIA: REALIDADE E FICCÇÃO

Em princípio, toda proibição é burra. Serve, apenas, para acirrar a curiosidade. Mas, tudo bem, numa sociedade que se queira com um mínimo de civilização e civilidade, algumas regras precisam ser criadas e estabelecidas. Dentro do limite do bom senso, dos usos e costumes e, principalmente, sem fanatismos.

Um juiz proibiu e mandou recolher um determinado jogo de computador, por considerá-lo violento. E reacende o debate sobre o que nossos filhos podem ou não ver. Ou sobre o que nós mesmos, cidadãos responsáveis, ou não, podemos escolher para assistir. Um debate sobre liberdade e violência. Assuntos complexos, merecedores de muita, muita tinta, muita saliva e muitas desavenças. Porque não há e não pode haver versões únicas, absolutas.

Mas vou meter minha colher (de pau? Ou é minha cara que é de pau?) nessa encrenca.

Ora, um jogo de computador é só um jogo de computador. Por mais violência que ele pareça conter ou realmente contenha, é ficção. Como um filme, ou um romance. Ou uma peça de teatro. Ou uma pintura. Por mais realista (entre aspas) que sejam um filme, um romance, uma peça de teatro ou um quadro, não passam de criações ficcionais, de representações da realidade. Não são a realidade.

Já é folclore o quadro de Magritte com um cachimbo e escrito embaixo: ceci n'est pas une pipe (isto não é um cachimbo). Ninguém mais discute o que quis dizer o pintor, embora na época tivesse provocado mentes e, provavelmente juizes ansiosos por estabelecerem a tal realidade absoluta das coisas.

A representação da realidade não é a realidade, por mais que estrebuchem os profetas da moral. Lembro um livro, Os Sete Minutos. Trata-se do julgamento, muito do gosto estadunidense, de um livro, por ser considerado imoral e por ter, aparentemente, induzido um rapaz a cometer um crime. Nem vou comentá-lo, quem quiser que o leia. Mas, a moral da história, o que se julga é se é possível alguém cometer um crime influenciado por uma obra de ficção e discute-se, afinal, o que é pornografia e o que é arte.

Também se pode discutir o que é violência ficcional e o que é violência das ruas, dos programas jornalísticos de televisão que pedem vingança e não justiça por qualquer crime cometido, de certas letras de rap (rithm and poetry – ritmo e poesia, não é música, por favor! – não confundam as coisas!) que incitam à sexualidade precoce, à violência contra a polícia ou contra a sociedade... isso é mundo real, é realidade. Não o filme, não o jogo, nem um quadro de Goya, por mais assustador que seja, nem, principalmente, um livro ou qualquer outra representação artística.

Personalidades genética ou socialmente deformadas confundem, sim, realidade com ficção. Mas não com a ficção criada por outros: com a ficção criada em seus próprios pensamentos, por sua imaginação doentia. Não será uma obra de arte que fará com que um Champinha da vida saia por aí torturando e matando pessoas, ele já faz isso por índole, por desvios de caráter, por mil outras motivações.

Então, proibir um jogo de computador, por ser violento, vai contra não apenas a lógica, mas contra todas as evidências que por aí se podem achar. É mais ou menos como acreditar em fantasma – não existe, mas muita gente acha que já viu um. Achar que um jogo de computador pode incitar à violência é acreditar em fantasmas. E fantasmas já os temos aos borbotões nessa nossa sociedade complicada e cheia de preconceitos e idéias estúpidas, para concordarmos com mais essa idiotice.

Afinal, um juiz é só um juiz, não a representação da Justiça que, aliás, como todo ente metafísico, tem tanta existência real quanto os fantasmas que seus representantes criam, para impor suas idéias ultrapassadas e eivadas de moralismo mal-cheiroso.

Pra encerrar: não vou citar Caetano Veloso, porque não concordo que é proibido proibir.

Chega de proibições, não?


Isaias Edson Sidney

24.1.2008

Obs.: Permitida e, até, incentivada a divulgação, desde que citados o autor e, pelo menos, o blog

Veneno de cobra:

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

SOBRE RADICALISMOS E OUTROS EPÍTETOS

17.1.2008

Engraçado: dizer que o Presidente Lula é uma besta, como fez o mais que idiota jornalistazinho Diogo Mainard, daquele tablóide chamado Veja, pode! Ele não é radical.


Não aprovar a CPMF e tirar do orçamento do Governo quarenta bilhões (40! Bilhões!), por pura birra de ano eleitoral, para deixar o Governo à míngua e, por conseguinte, os milhões de brasileiros que dependem do SUS e do Bolsa Família a ver navios, pode! Isso não é ser radical.

Entrevistar na rádio (como faz, por exemplo a CBN) um ilustre professor desconhecido, dando-lhe títulos que nós nem sabemos se ele tem (e pode, até, ter), para desancar o Governo sobre qualquer assunto, sem fazer o mesmo com outro ilustre professor desconhecido que tenha os mesmos possíveis títulos para defender, isso pode! Não é ser radical.


Dar qualquer notícia relativa ao Governo, com comentários irônicos do apresentador de televisão ou rádio, sem procurar o outro lado, o motivo (por exemplo: a Biblioteca Nacional de Brasília não tem, ainda, um único livro: isso é absurdo, sim, mas por que isso acontece? – buscar o porquê, para esclarecer o ouvinte, nem pensar, o negócio é ir logo desancando!), isso pode, sim, senhor. E não é ser radical.


Entrevistar exaustivamente o tal do Arthur Virgílio (ou qualquer outro líder ou não das oposições), que tem sempre duas ou mais pedras para atirar, isso quando não fala um monte de merda simplesmente porque é a função dele, como oposição, espernear, sem ouvir o outro lado, sistematicamente como fazem todos os meios de comunicação, isso também pode! Ninguém diz que é radicalismo.


Fazer oposição e falar o que quiser contra o governo é função da oposição, até falar bobagens e exagerar os fatos (como implicar com os gastos dos cartões corporativos de alguns ministros, e isso, às vezes é até justo ou, no mínimo, necessário, para o bom andamento da democracia), mas a imprensa, em mais de noventa por cento dos casos, usurpar essa função dos partidos oposicionistas, deixando de lado os princípios básicos de isenção de qualquer mídia que se preze no mundo, isso é até aplaudido! Não é, de forma alguma, uma das piores formas de radicalismo.


Agora, quando alguém da esquerda defende o Governo Lula, porque, como mais de sessenta por cento da população (eu disse: mais de 60%!) votou nele e, por isso, se acha no dever de defendê-lo, porque alguém, afinal, tem de fazê-lo, em nome dos mesmos princípios democráticos de que lança mão a oposição (eu disse e repito: a oposição, não a mídia, que, num país verdadeiramente democrático, deve ter um mínimo de compostura e isenção); quando ataco, porque tenho o direito de fazê-lo, os próceres da direita e suas tentativas golpistas, esses mesmos que já governaram e desejam continuar governando ad aeternum esse País e só o que fizeram até hoje foi desgraça em cima de desgraça, com seus projetos desenvolvimentistas voltados apenas para o grande capital e o povo que se vire; quando digo que essa gente só quer o poder para continuar a vender o País, porque eles nunca se preocuparam com o povo, bem, quando digo (e muitas outras vozes também o dizem) que realmente há um novo País sendo gestado, com dificuldades, com muitos obstáculos, mas há, sim, um grande rio de esperança nascendo de fontes não digo mais límpidas, mas pelo menos de fontes diferentes, para dessedentar um povo que precisa do crescimento que gere empregos, que gere esperança, que gere uma nova leva de brasileiros que não precisarão do Bolsa Família nem de outras bolsas, porque começarão, pouco a pouco, a vencer a linha de miserabilidade em que estão, então eu e todos os que dizem isso somos tachados de radicais!


Nós, nós somos os radicais, porque falamos o que achamos ser a verdade!


A verdade deles não é, nunca, radical, mesmo que ainda tenha o cheiro da saudosa pólvora que saiu dos quartéis em 1964 e ficou por aí por mais de vinte anos, perseguindo, prendendo, fazendo desaparecer e assassinando cidadãos, apenas porque não concordavam com o regime! E se não são exatamente os mesmos que comandaram o golpe, são os seus filhos e netos que estão ainda aí, nas esquinas, nas assembléias, no Congresso Nacional, com o nome de democratas ou de qualquer outro epíteto, mas sempre com as mesmas idéias, sempre com o mesmo saudosismo de bater continência para um milico de plantão no planalto, porque não podem admitir que há um cidadão do povo fazendo no Governo o que eles, com toda a sua arrogância e falsa sapiência, nunca conseguiram fazer, não porque não soubessem, mas porque nunca quiseram fazer nada, absolutamente nada, para o povo.


Radical, eu? Sou, sim, e daí?


Isaias Edson Sidney

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007


Essa é a imagem da classe média que lê nossos jornalões e assistem nossas TVs.

(foto de Renê Maltête)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

QUANDO TODO MUNDO FALA E NINGUÉM TEM RAZÃO

3.12.2007

O ex-presidente Cardoso, em momento de boquirrotismo explícito, acabou falando mais uma bobagem: ironizou a situação de Lula, por não ter estudos. O atual presidente, também ele um boquirroto de carteirinha, acusou o golpe e respondeu duro (outra bobagem, porque elogio em boca própria é vitupério, já diz o ditado): não tem tantos anos de estudo como seu antecessor, mas governa melhor.

Vou meter a minha colher de pau nessa polêmica, porque, primeiro, gosto de uma boa briga; segundo, porque, quando se fala demais, dá-se bom dia a cavalo, como dizia minha mãe.

Fatos: Fernando Henrique Cardoso é schollar, sociólogo com obras publicadas, respeitado por sua erudição e saber. Lula, o metalúrgico, tem apenas um curso no Senai. Trajetórias de vida absolutamente diferentes: classe média de um lado, com todas as suas aspirações burguesas; retirante nordestino, de outro, com todas as suas implicações e anseios que isso pode trazer.

Têm, em comum, apenas o fato de que chegaram ambos à Presidência da República.

FHC nunca enfrentou preconceitos, por falar bem, escrever razoavelmente, ter viajado por todo o mundo, ter sido aluno e professor de uma das nossas mais prestigiosas faculdades. Tem, portanto, aquilo que se costuma chamar de cultura.

Lula não tem a erudição de FHC. Não estudou. Mas tem conhecimento, tanto quanto uma vasta experiência de vida, de observações práticas, nascido, criado e formado que foi num outro cadinho de cultura, que a erudição costuma chamar de popular. Mas, chame-se do que se chamar, também é cultura.

Porque é aí que começa a confusão. Confunde-se cultura com erudição. Inteligência com conhecimento. E fala-se muita besteira.

Louve-se a erudição de Fernando Henrique Cardoso. Mas, ressalve-se que tal erudição não lhe confere nem mais nem menos conhecimento e cultura do que o conhecimento e a cultura de Luís Inácio Lula da Silva. Porque, a despeito de toda a diferença entre eles, são ambos homens inteligentes e absolutamente aptos para a mesma tarefa a que se propuseram: governar este País (se há um melhor que outro nesse mister, é questão de opinião, de ponto de vista, de engajamento nessa ou naquela corrente política, o que, absolutamente, não vem ao caso, no momento).

O preconceito que parece vir expresso nas palavras do ex-presidente é fruto, apenas, daquele tipo de discurso para inglês ver (no caso, para deleite de um bando de tucanos, em convenção), que provoca o riso de quem ouve, por pretender desqualificar o adversário pela ironia, por aquilo que o vulgo chama de gozação. E ironia, todo mundo sabe, é o argumento de quem não tem argumentos ou não deseja argumentar, somente jogar para a platéia, como parece ter sido o caso (tanto, que ele, depois, disse que não queria dizer exatamente o que disse, ou seja, desconversou). Mas, o estrago já estava feito. O preconceito que, tenho certeza, não existe no pensamento mais profundo de FHC, já se instalara na mente do povão. E de certos comentaristas, claro.

E o preconceito cristalizou-se no nível da linguagem: Lula não sabe falar bem o português e não fala outros idiomas. FHC fala razoavelmente bem o português e o inglês e o espanhol...

Bem, este é o ponto exato de onde provém a dor (como dizia um amigo meu, uma das pessoas mais inteligentes e cultas que eu conheço, mas que nunca passou do primário, em termos de escolaridade): a linguagem.

Há muito que a Filologia, a Lingüística e as Ciências da Comunicação já desmistificaram o conceito de erro em linguagem. Ou seja, não há, propriamente, erro: há falares diferentes, dialetos e idioletos, regionalismos, gírias e jargões. Explique-se: quando aprendemos a falar, aprendemos a linguagem, que é a capacidade humana de se comunicar através de sons articulados, não necessariamente ou obrigatoriamente a língua e sua gramática, que é a especialização erudita da linguagem de um grupo social. E língua pressupõe um código rígido de regras e normas, uma gramática. Não que a linguagem também não tenha um sistema, mas esse é mais flexível, mais intuitivo. Porém, nem mais nem menos errado.

Um exemplo simples (sem entrar em conceitos e nomenclaturas complexas): no sistema de linguagem que a criança (de fala portuguesa, evidentemente) aprende, está a conjugação de verbos do tipo correr: corro, corri etc. Assim, quando precisar usar o verbo caber, irá a criança dizer, por analogia: cabo, cabi. Está errado? Não, exatamente. Está dentro do sistema. Mas, esse verbo tem outra origem e trajetória dentro da língua chamada impropriamente de culta e, por isso, tem outra formatação fonética e fonológica. Assim, vem a gramática (que é conservadora, no sentido de estar atenta aos detalhes de origem e desenvolvimento da língua) e decreta: não é eu cabo nem eu cabi, mas eu caibo e eu coube.

Tem a gramática a função (repito) de conservar a língua, de mantê-la dentro de parâmetros que a tornem menos dinâmica, ou seja, de evitar que a língua (e a linguagem) se modifique tão rapidamente, que uma geração não consiga entender perfeitamente as anteriores.

Além disso, à gramática cabe o papel de policiar o código escrito, um meio de comunicação muito mais sofisticado e complexo, orientado muito mais para o futuro e para outros falantes de erudição do que para o presente, sem nenhuma preocupação com falantes que não dominem esse código, o que exacerba o seu conservadorismo.

É claro que saber falar e escrever bem um idioma pode, e deve, ser motivo de orgulho, porque pressupõe estudo, erudição e dedicação, muita dedicação. Mas tem-se que pensar que é isto, apenas, e nada mais: o domínio de uma ferramenta. Como um marceneiro sabe usar serras, talhadeiras, chaves de fenda etc. E, assim como dominar as ferramentas não torna o marceneiro um artista, ou mesmo um artesão, também dominar a língua e sua gramática não torna ninguém nem mais culto nem mais sábio.

Portanto, nessa pinimba entre o atual e o ex-presidente, todo mundo fala e ninguém tem razão. Porque, na verdade, mesmo, o que vale é o que cada um pensa, sua weltanschauung, suas motivações, interesses e ideário social, econômico e político. Discutir escolaridade de um e de outro, pôr reparo na fala mais ou menos canhestra de Lula em comparação com a fala empolada de FHC, a essa altura do campeonato, é bobagem. Puro sexo dos anjos.

Isaias Edson Sidney

Um pós-escrito (mais ou menos longo): Lula não tem escolaridade, porque não teve, quando jovem, oportunidade de estudar. E desenvolveu, depois, por opção, por circunstâncias da vida, outra trajetória, outra forma de contato com a realidade, de busca de conhecimento da identidade do povo e de seus problemas. Por isso, chegou à Presidência. E isso é um fato, não tem nada a ver com gostar ou não gostar dele, com apoiá-lo ou não. Lula não é nem pode ser exemplo para ninguém deixar de estudar. Se algum jovem disser que não precisa estudar, porque ele, Lula, não estudou, responda: então, nasça no Nordeste, venha num pau-de-arara para São Paulo, sobreviva nas piores condições de vida possíveis, torne-se metalúrgico e líder dos metalúrgico e presidente de sindicato e lute contra a ditadura e funde um partido etc. etc.